BLOG COLETIVO, os temas são variados.
Tudo começou em 2004 numa comunidade de gente 'madura' do orkut, aos poucos cresceu a amizade e sintonia, apesar de vivermos em diferentes lugares. Participamos da comunidade fechada Jiló com Miolo no orkut, no Facebook, e no blog mostramos nosso 'espírito jiló'.

Mãezinha

A terra de meu pai era pequena

e os transportes difíceis.

Não havia comboios, nem automóveis, nem aviões, nem misséis.

Corria branda a noite e a vida era serena.

 

Segundo informação, concreta e exacta,

dos boletins oficiais,

viviam lá na terra, a essa data,

3023 mulheres, das quais

45 por cento eram de tenra idade,

chamando tenra idade

à que vai do berço até à puberdade.

 

28 por cento das restantes

eram senhoras, daquelas senhoras que só havia dantes.

Umas, viúvas, que nunca mais (oh! nunca mais!) tinham sequer sorrido

desde o dia da morte do extremoso marido;

outras, senhoras casadas, mães de fiilhos…

(De resto, as senhoras casadas,

pelas suas próprias condições,

não têm que ser consideradas

nestas considerações.)

 

Das outras, 10 por cento,

eram meninas casadoiras, seriíssimas, discretas,

mas que por temperamento,

ou por outras razões mais ou menos secretas,

não se inclinavam para o casamento.

 

Além destas meninas

havia, salvo erro, 32,

que à meiga luz das horas vespertinas

se punham a bordar por detrás das cortinas

espreitando, de revés, quem passava nas ruas.

 

Dessas havia 9 que moravam

em prédios baixos como então havia,

um aqui, outro além, mas que todos ficavam

no troço habitual que o meu pai percorria,

tranquilamente no maio sossego, às horas em

que entrava e saía do emprego.

 

Dessas 9 excelentes raprigas

uma fugiu com o criado da lavoura;

5 morreram novas, de bexigas;

outra, que veio a ser grande senhora,

teve as suas fraquezas mas casou-se

e foi condessa por real mercê;

outra suicidou-se

não se sabe porquê.

 

A que sobeja

chama-se Rosinha.

Foi essa que o meu pai levou à igeja.

Foi a minha mãezinha.

8 comentários:

Jussara Gehrke disse...

sua autoria SAR?

final muito doce

SAR disse...

Ju... não é não, para tanto me falta talento e arte.

Antonio gedeão.. o mesmo da pedra filosofal... eles não sabem que o sonho....que já postei aqui

Anhuska disse...

Teve suas fraquezas mas casou-se é ótimo.

IZILDA disse...

Antonio Gedeão é aquele seu professor de física e química, não é?
Ele tem um olhar poético muito diferenciado. Mesmo. Estou adorando conhecer um pouco de seus poemas. Obrigada por nos enriquecer, Johnny!

SAR disse...

Querida Zi:

Congratulo-me saber que gosta das poetices que eu gosto.

Antonio Gedeão foi meu professor de fisica-quimica. Chamei a atenção porque ela é um poeta com formação e cabeça de ciencias exatas, e a poesia dele tem um viés interessante de economia de palavras e poucos floreados

Moema disse...

Uma vez eu li um texto do Gedeão que adorei, e agora ao encontrar essa postagem sobre ele feita pelo João me lembrei e sai a procurar pela net.
Eis o texto abaixo:
A minha aldeia

Antônio Gedeão

Minha aldeia é todo o mundo.
Todo o mundo me pertence.
Aqui me encontro e confundo
com gente de todo o mundo
que a todo o mundo pertence.

Bate o sol na minha aldeia
com várias inclinações.
Angulo novo, nova ideia;
outros graus, outras razões.
Que os homens da minha aldeia
são centenas de milhões.

Os homens da minha aldeia
divergem por natureza.
O mesmo sonho os separa,
a mesma fria certeza
os afasta e desampara,
rumorejante seara
onde se odeia em beleza.

Os homens da minha aldeia
formigam raivosamente
com os pés colados ao chão.
Nessa prisão permanente
cada qual é seu irmão.
Valência de fora e dentro
ligam tudo ao mesmo centro
numa inquebrável cadeia.
Longas raízes que imergem,
todos os homens convergem
no centro da minha aldeia.

IZILDA disse...

Lindo, Moema!
Por que não posta como um tópico em nosso blog, ao invés de deixar aqui escondidinho nos comentários?
Faça isso! O Gedeão está a merecer, ora pois...
Beijos

IZILDA disse...
Este comentário foi removido pelo autor.