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O QUE É VAGINA?


Desconheço o autor

Aquele outdoor se exibia de tal maneira que era mais fácil ignorar o semáforo do que suas letras gigantescas: "Os Monólogos da Vagina". A exuberância desaforada da peça publicitária preocupou Laércio que tinha que passar por aquele cruzamento todos os dias levando a bordo uma ardilosa criatura de apenas quatro anos de idade que atendia pelo nome de:


-Vitinho! Ele vai ler isso, Clara. É uma questão de tempo - profetizou Laércio à sua mulher quando viu o gigantesco cartaz ser instalado.

- Relaxe. O menino nem presta atenção nessas coisas.

- Ele vai ler, Clara. Olhe o tamanho das letras! Ele vai ler e vai querer saber o que é. Você já pensou?

- Você tá ficando neurótico.

- Eu disse para a sua mãe que era cedo demais para alfabetizar a criança. Mas ela ouve alguém?

- Você pode deixar a minha mãe fora das suas neuras?

O tempo foi passando, o outdoor foi ficando e Vitinho nem aí para a vagina em caixa alta que se exibia logo atrás do semáforo no qual paravam todo santo dia na volta da escola. Nunca pegaram o sinal aberto naquele cruzamento, porque reza a Legislação de Murphy que quanto mais você precisar de um semáforo verde, mais vermelho ele lhe aparecerá.

Como o inevitável pode ser até protelado, mas nunca (como o próprio nome diz) evitado, foi num belo final de tarde que Laércio e Clara ouviram um balbuciar vindo do banco de trás do carro:

- NÓ, LÔ, GOS, monolôgos, DA VA...

O carro saiu cantando pneus sob o sinal vermelho, arrancando o jovem leitor de seu texto e um grito de sua jovem mãe:

- VOCÊ PERDEU O JUÍZO?!!! Vai nos matar por causa de uma bobagem?

Laércio estava mais tenso que um carioca dirigindo de madrugada na Linha Amarela. O suor frio escorria em cascatas pelas têmporas, estava zureta a ponto de ignorar (o que é comum) sem querer (o que é raro) o chilique da mulher. Só conseguiu praguejar comentários para si mesmo tentando expurgar o que o deixava tão inconformado:

- Eu aprendi a ler aos seis anos. Por que ele não pôde esperar? Deveria ser proibido alfabetizar crianças pequenas. Elas não têm estrutura para receber tantas obscenidades. Até os seis anos as crianças deveriam só empurrar carrinhos e brincar com bonecas. Elas vão ter muito tempo depois para se entender com as letras...

A verborragia desvairada continuou por um bom tempo, o que fez Clara perceber que o caso era psiquiátrico-agressivo. A prudência falou mais alto que a raiva. Preferiu então se calar (o que era raro) a inflamar uma discussão maior (o que era comum).

Não se falou mais no assunto até o famigerado dia da grande liquidação de fronhas. Versa a supracitada lei de Murphy que, quando uma coisa está para dar errado, todas as condições adversas estarão tão fabulosamente presentes que não haverá - em todo o Universo conhecido - uma catástrofe, aberração ou buraco negro que a impeça ou a faça ocorrer de maneira pior. A batalha de Laércio contra a vagina de papel é a prova científica de que Murphy estava absolutamente certo sobre coisas que dão absolutamente errado.

- Laércio, vá ao shopping - mandou Clara no dia em que se cumpriria a profecia - Está acontecendo uma grande liquidação de fronhas brancas. Compre cinco pares. Não agüento mais dormir com aquelas bolinhas na cara. Vá logo e leve o Vitinho enquanto eu termino o jantar.

E assim eles foram. E assim voltaram:

Satisfeito por ter conseguido cinco pares de fronhas por apenas trinta e sete reais e quinze centavos, Laércio sequer reparou nos olhos do filho ao parar no semáforo. Mais esperto do que o pai, o menino desta vez apenas simulou com os lábios as últimas sílabas, em silêncio, e disparou de vez a pergunta fatal:

- Papai, o que é vagina?

Como nas horas de pânico o que governa a mente é o absurdo, a única coisa que passou pela cabeça de Laércio foi: "por que aquela velha que ensinou esse moleque a ler não está aqui?".

- E monólogo, filho? Você sabe o que é monólogo? - Laércio viu essas palavras saírem de sua boca completamente admirado com a própria agilidade de raciocínio.

- O que é vagina, papai? - Insistiu Vitinho revertendo o xeque-mate do pai.

- Como você quer saber o que é vagina se você ainda não sabe o que é monólogo?

- Você sabe o que é vagina, papai?

Foi nessa hora que um anjo apareceu em forma de canção de Sérgio Reis. O clássico sertanejo "Panela Velha" tocou no celular de Laércio, indicando que o chamado era de Clara:

- Onde vocês estão? Era só para comprar fronhas. O jantar vai esfriar - disparou a mulher do outro lado da linha.

- Estamos chegando! - Foi só o que o marido conseguiu responder.

Nesse momento percebeu que ainda estavam parados no semáforo, com o sinal verde já passando para o amarelo novamente. Laércio acelerou mudando de marcha e de assunto. Falou de bicicletas, de desenhos animados e de fronhas. E imaginou o estrago que uma alfabetização precoce pode fazer na cabeça de uma criança.

Depois daquela saia-justa, o assunto não voltou mais à baila. Foi somente quando estavam trocando as folhas do outdoor que Laércio, parado na mesma encruzilhada, relembrou o caso. Intrigado com o longo e conformado silêncio do filho, perguntou:

- E aí, filho? Não quer mais saber o que é monólogo?

- Não, papai. A minha amiga Daniela já mostrou o monólogo dela pra mim, lá na escola.

Moral: se não houver diálogo, o seu filho partirá para o monólogo.

 

Um comentário:

Jussara Gehrke disse...

ótima a historinha Aninha!...hehe

fez me lembrar do meu filho Alberto antes de ser alfabetizado, ele conhecia as letras, mas não sabia ler.

num muro perto de casa estava pixado PUTA, e cada vez que passava prestava atenção nas letras P... U... T... A... e lia separado, sempre lia P... U... T... A...

até que chegou o dia que leu e queria saber o que era PUTA!

quem explicou pra ele foram os irmãos mais velhos...rs

criança é ótima!

bjs
Ju